Ontem resolvi pegar a última prova da PRF (Cespe/UnB 2013) para responder a parte de Língua Portuguesa e elaborar uma aula específica para os concurseiros, claro, não só para aqueles interessados em concursos policiais, tendo em vista que esse tema está em todas as provas. Pois bem, prova tranquila! Mas, antecipadamente, permita-me o clichê: “para quem estudou” 🙂

Foram 15 questões das quais 3 tratavam apenas de vozes verbais. Isso mesmo! Vozes verbais! ou seja, se você não conhecesse o assunto, seriam 3 pontos a menos. Não preciso discorrer sobre a tragicidade da situação, né? Mas calma… calma. Fique bem confortável na cadeira, coloque o celular no modo avião e vamos entender de uma vez por todas esse tema.

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Primeira coisa: tire da sua cabeça que voz ativa é apenas aquela frase na qual o sujeito pratica a ação. Eu sei que pode ser um pouco complicado pensar diferente, até porque, imagino, a grande maioria aprendeu assim (estou nesse grupo indefinido também) e o que posso dizer, inicialmente, é: pode haver voz ativa em sentença na qual o sujeito sofre a ação. Vou mais além: quando pensamos dessa forma, estamos limitando o estudo sintático da sentença, dando a entender que apenas a análise da semântica (do significado) é suficiente. Veremos que isso é equivocado.

As vozes verbais são divididas conforme a figura acima: ativa, passiva e reflexiva. A voz passiva ainda se subdivide em: voz passiva analítica e voz passiva sintética.

O que é apassivar?

VOZ PASSIVA ANALÍTICA:

Pronto! Eis a pergunta correta a se fazer. Apassivar nada mais é do que transformar o objeto direto da voz ativa em sujeito paciente na voz passiva. Vejamos:

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A frase acima está na voz ativa e em sua forma direta (sujeito – verbo – complemento). Anotado à caneta, temos a função sintática de cada termo. Percebe-se que “quem marca, marca alguma coisa; no caso, marca o compromisso”. Ou seja, estamos diante de um verbo transitivo direto que tem como objeto direto a palavra “o compromisso” e como sujeito, a palavra “o deputado”. Esse é um exemplo simples de voz ativa. Agora vejamos como essa frase fica na voz passiva analítica:

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Observe que o termo que era objeto direto na voz ativa tornou-se sujeito paciente na voz passiva. Isso é apassivar. ANOTE:

Só posso apassivar frase que tenha Verbo Transitivo Direto.

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Se a frase que estou analisando só tem Verbo Transitivo Indireto, posso apassivar? NÃO!

Se a frase que estou analisando só tem Verbo Intransitivo, posso apassivar? NÃO!

Se a frase que estou analisando só tem Verbo de Ligação, posso apassivar? NÃO!

Observe os exemplos abaixo:

Os exemplos de 1 a 4 já conhecemos. Sendo assim, preste atenção no último (marcado com estrela). Veja que o verbo é bitransitivo, ou seja, é tanto transitivo direto, quanto indireto. O que fazer nesse caso? Oras, se tem objeto direto, é possível apassivar. Ficando assim:

IMPORTANTE 1: A frase vai para a voz passiva normalmente, a única diferença é que o objeto indireto da ativa continua sendo objeto indireto da passiva, enquanto o objeto direto segue seu destino, transformando-se em sujeito paciente.

IMPORTANTE 2: Na voz passiva sempre haverá uma locução verbal formada pelo verbo “ser + particípio“. Recordando: verbos no particípio são aqueles terminados em “ido” e “ado” (imprimido, publicado, imaginado, etc)

IMPORTANTE 3: Durante a transposição da voz ativa para a voz passiva, deve-se manter o tempo, o modo e o número do verbo. Ou seja, se na voz ativa o verbo estava no pretérito perfeito do indicativo singular, isso não mudará na voz passiva. Basta observar o exemplo acima: “Eu paguei a conta”, “A conta foi paga” (ambas estão no pretérito perfeito, no modo indicativo e no singular).

VOZ PASSIVA SINTÉTICA:

Sintetizar é diminuir, sendo assim, uma voz passiva sintética será menor (em estrutura) que uma voz passiva analítica, pois, como veremos, não haverá locução verbal e nem agente da passiva em sua composição.

No entanto…

… música de suspense ao fundo. 🙂

É na voz passiva sintética que estudamos a ilustre partícula “se”. Sim! Sim, meus amigos! Ela é ilustre mesmo. Ela é chique, ela é convidada para quase todas as provas, ela adota várias formas (odeia repetir a mesma roupa) e reprova muita gente preparada. Mas… coitada, não sejamos injustos: ela é apenas uma pobre partícula mal compreendida. Sendo assim, por ela e pelo bem geral da nação, passaremos a compreendê-la hoje mesmo! Veja abaixo a estrutura de uma voz passiva sintética:

Verbo+SE + Sujeito Paciente

Quando a partícula “SE” encontra-se presente em uma voz passiva sintética, ela é conhecida como “Partícula Apassivadora“, e é justamente aí que surgem as famosas confusões referentes às classificações sintáticas do nosso querido “SE”. As provas de concurso sempre tentam confundir o candidato, chamando-a, em inúmeros casos, de “Índice de Indeterminação de Sujeito”.

Perceba uma coisa: a voz passiva tem sujeito, ou seja, o verbo concordará com ele (o que é de praxe), por isso, a partícula “SE” não pode ser chamada de Índice de Indeterminação de Sujeito, uma vez que não faria o menor sentido. Vejamos os exemplos abaixo:

Ficou na dúvida se a partícula “SE” é P.A ou I.I.S? Tente transformá-la em voz passiva analítica: “Aquele réu foi inocentado”. Percebe-se que há sujeito paciente (“Aquele réu”), de tal forma que a partícula “SE” em questão é uma partícula apassivadora e deve concordar com o verbo.

Outro exemplo de voz passiva sintética:

Jogam-se búzios” -> búzios é o sujeito paciente. Transformando-a em voz passiva analítica: “Búzios são jogados“, ou seja, há sujeito paciente e o verbo deve concordar com ele (indo para o plural).

Dica: observe o verbo, se for transitivo indireto, intransitivo ou de ligação, a partícula “se” não poderá ser “partícula apassivadora”, pois, como vimos, só dá para apassivar frases com verbo transitivo direto.

Voz reflexiva:

Sendo bem direto: cai pouco em prova.

Todavia, o que você deve saber é que na voz reflexiva o sujeito pratica e recebe a ação verbal, ou seja, ele é agente e paciente ao mesmo tempo.

É usado, obrigatoriamente, com os pronomes oblíquos reflexivos (me, te, se, nos, vos, se).

Ex1: o menino feriu-se. (o rapaz cometeu o ato de ferir a si mesmo);

Ex2: Os namorados beijaram-se (um beijou o outro);

No primeiro exemplo temos a ideia de um ato reflexivo (recai sobre o próprio agente), enquanto que no segundo exemplo temos a ideia de reciprocidade (um age no outro de forma recíproca).

Porém, a banca CESPE não faz esse discernimento (pelo menos até onde eu vi), de tal forma que considera os dois exemplos como “voz reflexiva“.

Professor Adriano Rodrigues Natividade.